Pedro Fanelli - Amor incondicional às artes gráficas
Seg, 26 de Março de 2012 08:30
Pedro Fanelli faz parte daquela geração de gráficos que literalmente dormiam na produção para que um trabalho saísse no prazo e com qualidade. Como diretor da Editora Parma, prepara-se agora para o processo de sucessão.
Pedro José Fanelli tem 80 anos e, desses, 53 foram dedicados às artes gráficas. O tempo vivido está nas linhas marcadas de seu rosto, as vitórias e as decepções, no seu andar um tanto mais lento. Mas algo acontece com esse senhor altivo quando recorda a primeira vez que entrou em uma gráfica. Os olhos brilham, um sorriso se abre ao relembrar a cena preciosamente guardada em sua memória. “Fiquei encantado”, descreve Pedro, com uma expressão terna.
O episódio aconteceu na década de 1950, algum tempo depois de ele chegar a São Paulo. Natural da cidade paulista de Pindorama, Pedro veio para a capital com 17 anos junto com o irmão, Luís Carlos, ambos preparando-se para prestar o vestibular. Para sobreviver, começou a trabalhar em vendas, negociando desde imóveis até ações a espaços publicitários, algo que lhe trazia uma boa renda. São Paulo efervescia com as festividades de seu quarto centenário, e o País, depois do impacto do suicídio de Getúlio Vargas, entraria em um de seus períodos mais prósperos nas mãos de Juscelino Kubitschek.
A captação de anúncios o levou à produção de uma revista e a cena descrita aconteceu quando Pedro ficou encarregado de deixar o material da publicação na gráfica. Não demorou muito para que ele e o irmão comprassem uma linotipo e uma impressora tipográfica, criando, em 1957, a Gráfica e Editora Universo, que pouco depois se tornou Editora Obelisco por uma questão de duplicidade de razão social. Na pequena tipografia, instalada no bairro do Brás, Pedro vivia fascinado pelo processo de impressão,
produzindo revistas e jornais.
Dois anos se passaram até o ingresso dos outros dois irmãos, Sérgio e Francisco, no negócio. Surgiu então a Editora Fulgor, em sociedade com Paulo Patarra, editor da Abril, que enveredou pelo campo das ciências humanas. Entre seus autores havia nomes como Olímpio Guilherme e Gondin da Fonseca. “Aí veio a gloriosa e nos pegou”, conta Pedro, referindo-se ao Golpe de Estado de 1964.
O cunho político das obras que a Fulgor publicava levou Luís Carlos várias vezes ao Departamento de Ordem Política e Social, o temido Dops, órgão do governo criado durante o Estado Novo para controlar e reprimir movimentos políticos e sociais contrários ao regime no poder. “Nenhum de nós chegou a ser preso, mas foi um período muito difícil. Tivemos vários livros apreendidos e, quando isso acontecia, os clientes não nos pagavam. A Obelisco era fiscalizada continuamente e a toda hora bloqueavam a gráfica”. Já nessa época a tipografia estava no bairro da Barra Funda.
Nasce a Editora Parma
A Fulgor sucumbiu e, para desvincular a Editora Obeslico do viés político, em agosto de 1970 foi criada a Editora Parma, tendo como sócios Nancy Fanelli e Romeu de Lorenzo, irmã e tio de Pedro, respectivamente. Logo o tio se retirou da sociedade para a entrada de Pedro, Luís Carlos e Sérgio.
Através de um trabalho produzido para a FTD, a Editora Parma tomou o caminho dos livros didáticos e deu um salto com a compra da primeira impressora offset, uma bicolor. Apaixonado que é pela produção, Pedro viveu intensamente essa transformação, como conta Nancy: “Pedro revirava as máquinas, conhecia cada peça, acompanhava todos os trabalhos. Muitas vezes dormia na produção”. Ele mesmo confessa que sua esposa, Bernardete, chegou a acompanhá-lo em várias dessas noites.
A Parma prosperou, mudou-se para uma sede própria em Guarulhos e Pedro, que não teve filhos, continuou dedicando-se à área industrial. Na década de 1980, Luís retirou-se da sociedade e Francisco voltou para o interior, onde faleceu. Nos anos 2000, problemas administrativos abalaram a empresa, que agora está próxima da recuperação total.
Atualmente, a gráfica conta com cerca de 300 funcionários e mantém-se fiel ao segmento editorial. Pedro, que vai à empresa todos os dias, está preparando seu sucessor, o sobrinho Fernando. “Tenho saudade da época em que me dedicava integralmente à produção. Mas, olhando para a evolução dos equipamentos, percebo o quanto era difícil o processo de impressão naquela época. Hoje é uma maravilha”. E completa: “Tudo o que conquistei no ramo gráfico foi com muita dificuldade, mas ele me compensou enormemente com as pessoas que conheci, as amizades que construí”.